Editorial

Coração Roubado

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Enfurecido e ao mesmo tempo frio no falar, ele afirmava, categórico:

- Comigo vocês nada conseguirão! Eu odeio este lugar!

- Por que, meu irmão? - inquiria o interlocutor. Nunca esteve aqui antes?

- Conheço vocês. Nada aqui me interessa. Fui trazido à força, uma falta de respeito. Sou líder nas trevas. Muitos estão sob o meu comando. Vocês não sabem com quem estão se metendo! - dizia, ameaçador.

- No entanto, para nós você é apenas um irmão, como qualquer outro aqui presente. Sabemos que se aproxima carente de socorro e estamos aqui para auxiliá-lo.

- Não preciso da ajuda de ninguém! Eu semeio o ódio entre as pessoas, não me importa a quem. É isso o que me dá prazer. Gosto de vê-las sofrer, como eu sofri!

- Desconhece a Lei de Amor, ensinada por Jesus?

- Esse Jesus nada vale para mim! Por onde passo, dissemino a dor!

- Não sente remorso ao fazer mal às pessoas inocentes?

- Não sinto Nada! Não tenho coração! Meu peito está vazio!

- O seu peito está vazio porque você afastou-se dos amigos, isolou-se na maldade - arriscou o dirigente do grupo mediúnico. Apesar disso, ainda há aqueles que o amam e aguardam o seu retorno ao convívio - ponderava. Não sente saudades de alguém que já amou? Com quem compartilha as suas angústias? Não há um ombro amigo para você conversar e desabafar?

- Não! Já lhe disse: não sinto nada. Não tenho mais coração, ele me foi roubado!

Percebendo a deixa, o encarnado inquiriu, tentando provocar uma resposta que lhe fornecesse mais pistas acerca da real origem do problema que acometia o visitante do plano invisível:

- Quer dizer que outrora houve uma frustração amorosa e seu coração ficou partido?

- Você não entendeu - disse impaciente. O meu peito foi aberto e meu coração retirado! A maldita o arrancou!

- Você quis dizer retirado fisicamente? - surpreendeu-se o indagador.

- Exatamente! Espreitou-me durante o sono, desfechou-me uma facada, matando-me. Depois abriu o meu tórax e dele extraiu o coração. Desde então estou assim, vazio de sentimentos! Mas ela há de me pagar, quando eu descobrir seu paradeiro! Vou supliciá-la de todas as formas possíveis! - esbravejou.

O condutor da equipe mediúnica deteve-se por alguns segundos a refletir. Por fim, disse ao espírito em sofrimento, que se comunicava por um dos médiuns:

- Acalme-se. A Lei de Deus é a Lei de Justiça. Se aconteceu assim, há uma explicação, um motivo legítimo. Vamos pedir auxílio ao Mais Alto, pois somente com a permissão e o apoio de Jesus nos é possível superar certos óbices que nos parecem intransponíveis!

Enquanto o espírito manifestante se contorcia em ódio, fruto das recordações do crime que se cristalizaram em seu psiquismo, sabe-se lá por quanto tempo, uma prece foi proferida pelo coordenador.

- Senhor! Pedimos o Seu amparo em favor do presente irmão que está acometido por grande perturbação. Com a Sua permissão, rogamos que sejam revelados a esta criatura quadros do seu passado longínquo, nos quais ele se envolveu com a irmã da qual reclama vingança. Obrigado Mestre e que seja feita a Sua vontade, hoje e sempre.

Um silêncio profundo marcou o ambiente por longos minutos. Até que finalmente o dirigente percebeu, pelas expressões do médium, que o atendido tentava balbuciar algumas palavras. Aproximou os ouvidos e, atônito, escutou-o dizer:

- Posso ver tudo... Eu era um canibal... Eu era um canibal... Eu a matei.... Abri-lhe as entranhas, arranquei o seu coração e o comi em seguida.

Novo silêncio adveio. A expressão do comunicante, pela face do aparelho mediúnico, transfigurou-se de surpresa para profunda tristeza.

- Agora compreendo tudo! - completou, vacilante.

- Não se entristeça, meu irmão! - incentivou o dirigente, postado em pé ao lado do médium. Vamos prosseguir rogando a Jesus que o auxílio se concretize, pois entendemos que você aqui foi trazido para ser aliviado deste fardo que o sobrecarrega há tantos anos!

Nova prece se fez ouvir na sala, com apelo à permissão divina para que alguém viesse em amparo ao espírito que se dizia algoz, mas que era, de fato, vítima de seu próprio ódio. E uma vez mais o silêncio dominou a reunião, até que o visitante se prorrompeu em lágrimas. Tentava expressar-se, engasgado, mas não conseguia falar direito. Depois de algum tempo, finalmente relatou:

- É ela! É ela! Está linda, brilhante. Vem do alto, desce sobre mim.

E prosseguiu:

- Oh! Meu Deus, o que vejo em suas mãos! O meu coração! Está dourado, reluzente! Ela o traz de volta!

O encarnado, também emocionado ante a beleza da cena assim descrita, sugeriu:

- Querido amigo, prepare-se para receber o seu coração de volta ao  lugar que lhe é devido. Vamos nos despedir de você. Siga com ela e tenha sempre Jesus no coração!

E foi assim que o episódio terminou, pelo menos para quem estava na sala, no campo material. Certamente, o espírito foi recolhido pela antiga companheira, que havia se adiantado no progresso espiritual, enquanto ele se perdeu nas teias do rancor e da vingança.

Como registrou o Apóstolo Pedro, em sua Primeira Epístola, o amor cobrirá a multidão dos pecados.[1] Saber perdoar é indispensável à evolução do espírito eterno.

Reflitamos: Jesus tem sempre razão, nós é que muitas vezes teimamos em recusar o banquete espiritual que o Divino Senhor nos oferece como alimento.

 

Marcelo de Oliveira Orsini

 

 


[1] I Pedro 4:8

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