Editorial

Evangelização de Portadores de Transtorno Mental e/ou Dependência Química em Ambiente Hospitalar

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Quando permitimo-nos ver o homem como um ser integral, a atuação a seu favor se faz em uma vertente bio-psic-sócio-espiritual a fim de auxiliá-lo em sua melhoria íntima, respeitando o tempo de cada um no aprendizado da vida.

André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier nos faz uma assertiva de que “o trabalho de recuperação do corpo, fundamenta-se na reabilitação do Espírito”. Desta feita, a ação de evangelizar chega como uma ferramenta bendita em auxílio à reabilitação do Espírito, quando este ouve as lições de Jesus, acolhe-as na mente e coração e permite que as mesmas possam produzir frutos de renovação íntima, numa crescente evolutiva no Bem.

Refletindo sobre a pedagogia do Cristo percebemos que por conhecer a quem a mensagem seria levada, Ele adequava sua linguagem ao ouvinte e à circunstância; não apenas transmitia a palavra, mas dosava o ensinamento de acordo com a condição individual de cada um e, acima de tudo, ensinava pelo exemplo e com amor. Precisamos, então, como aprendizes que somos, buscar seguir-lhe os passos, aprender e apreender para transmitir Suas lições – este roteiro de vida que nos foi legado.

Quando acolhemos o “ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15) é preciso munir-se de fé, confiança em Deus e arregimentar valores morais e espirituais para que esta empreitada de amor seja feita com caridade, no trabalho e serviço em nome de Deus, sabendo que estaremos como semeadores a semear a semente divina. Esta semente de luz cairá no terreno íntimo do coração do outro, mas irá com parcela de nosso magnetismo (o que estamos oferecendo?); a germinação, no entanto, dependerá da individualidade de cada qual para que o crescimento, floração, frutificação se faça ao tempo de cada um.

É servir e passar, sem urgência na resposta. Este e um aprendizado para a vida (de quem ouve a palavra e para quem a transmite). Em nossa condição humana atual, não conseguiremos alcançar a profundidade da transformação ocorrida a nível espiritual na alma destes irmãos, que momentaneamente estagiam na dor do sofrimento mental ou das dependências, seja de substâncias ou de outras. Cremos, no entanto, que as lições do evangelho são capazes de promover a higienização psíquica em o campo mental das criaturas, sendo esta, talvez, a primeira resposta e possibilidade do ser. Higienizado e limpo, surge um plano psíquico favorável à promoção do autoencontro e deste, a abertura para a provocação de mudanças íntimas, compreensão de que todos somos instrumentos ativas na construção da própria vida e responsáveis pelos próprios atos e escolhas. Favorece o entendimento e compreensão das dores e aflições íntimas vividas por cada qual.

Evangelizar em um ambiente psiquiátrico (ou em qualquer outro lugar), portanto, à luz dos ensinos dos Espíritos Superiores, é vê-los como Espírito imortal na estrada da vida, muito próximo a nós. Nesta hora, ao ver o outro, caído naquela rota, “quase morto”, é preciso mover-se de íntima compaixão e auxiliar, sem julgamentos, nem exposições da dor alheia, mas sim manifestando o afeto que fale ao espírito. Se o toque na alma acontecer, a busca por entendimento e conceitos chegará num momento posterior facultando um reencontro com a espiritualidade, provocando o movimento necessário de mudança, nesta ou noutra vida.

Sabemos que o enfermo traz em si marcas de seus delitos, mas é preciso lembrar que qualquer alma, por mais infratora que tenha sido, contêm em si ações enobrecedoras e a essência divina que precisam ser percebidas e valorizadas.  E, ao evangelizador cabe um papel importante em ressaltar estes pontos.

Ao refletir sobre a prática da evangelhoterapia, é imperioso pensar no ato de cuidar, que faz parte das ações daquele que se coloca como evangelizador e facilitador no processo. É preciso respeitar as crenças religiosas alheias, atendo-se às questões morais contidas nas lições imorredouras do Cristo, posto que elas são universais. Neste cuidar, é urgente levar consolo e esperança, pois muitos destes perderam a vontade de viver.

Nesta tarefa é necessário, também, cuidar dos recursos didáticos, lembrando que naquele ambiente estarão criaturas com variações em seus quadros patológicos. Pode-se usar material lúdico, tendo o cuidado de não infantilizar; músicas que elevam; imagens e palavras que toquem a alma e promovam elevação vibratória. Não se descuidar da busca pelo conhecimento evangélico/doutrinário. Não olvidar uma aplicação prática para os ensinamentos, contextualizando a lição trabalhada, favorecendo a compreensão do tema estudado. Ter o cuidado de não levar, não usar materiais cortantes, cordas, etc. capazes de ferir ou machucar, lembrando-se do ambiente hospital em que estão.

O preparo íntimo do evangelizador é imprescindível, desta feita, quando dirigir-se para aquele encontro é importante munir-se de recursos que envolvam, sensibilizem, despertem e tornem agradável o momento da evangelização, posto que aquele instante é uma verdadeira comunhão espiritual. Construa uma atmosfera de confiança, recheada de palavras de bom ânimo, conforto, neste trabalho em equipe, respeitando uns aos outros e sempre buscando o amparo da Espiritualidade Benfeitora, que ali se encontra em nome de Deus. 

É preciso conhecer, não só sobre o que diz o evangelho descrito pelos evangelistas, o conteúdo doutrinário mas, também, o saber acerca das patologias que acomete os irmãos internos, a fim de, no mínimo, não comprometer o trabalho dos profissionais da área de saúde que naquele ambiente tudo fazem para auxiliar, através do uso de fármacos, psicoterapias, terapias ocupacionais, procedimentos outros e demais abordagens necessárias à recuperação do enfermo.

Importa saber que no contato com os irmãos em sofrimento mental, numa fase de crise, em momentos agudos da doença, é possível ouvir frases e expressões carregadas de dor e sofrimento, muitas vezes manifestas através de vibrações de raiva, choro, rancor, revolta, além de palavras que podem ferir a quem ouve, deixando vir à tona marcas de suas histórias reencarnatórios... É imperioso entender que aquela criatura ferida é teu irmão em humanidade. Nesta hora, então, é momento da manifestação real da vivência do evangelho, ou seja: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15:12).

Algumas pessoas não compreendem a tarefa de evangelização em ambiente psiquiátrico e como é sua ação. Entendemos que a atuação se faz numa vertente espiritual, que abrange o ser além do corpo físico. É uma proposta terapêutica para a alma! Este olhar faculta o entendimento das possibilidades de recepção dos ensinamentos evangélico-doutrinários. Por analogia, é como se no Espírito existissem “receptores sensoriais” capazes de se ligar às lições de esperança, misericórdia e amor de Deus, convertendo-as em sinais ou energias capazes de ser entendidas e assimiladas pela alma enferma.  Assim toda gota de amor que verte sobre aqueles corações, são possibilidades reais de melhoria no terreno intimo.

Quando a dúvida surgir em seu coração, e fizer com que penses em desistir da tarefa junto a estes irmãos, lembrem-se de uma belíssima lição, que fala do amor incondicional de um pai distanciado do seu filho, em planos espirituais distintos... Aquele pai amoroso passa a visitar, diariamente, aquele ente querido em planos abismais, levando-lhe o conforto de uma oração e frases esclarecedoras... Sem urgência, sem cobrança de uma cura imediata, apenas doando sua atenção, carinho, amor... Irmão X, conclui: “A renovação conseguida por noventa e dois anos de devotamento talvez custasse, sem eles, noventa e dois séculos. O amor para auxiliar, aprende a repetir”.
Muita paz!

Lucrecia Valle
03/2013

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