Editorial

É possível obter notícias dos desencarnados?

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Intitulamos este artigo com uma pergunta, aliás, muito comum em nosso meio espírita. Em geral, a dúvida se origina a partir da combinação de dois fatores: a saudade intensa advinda da morte física de um ente querido e a escassez de conhecimento de determinados mecanismos de comunicação entre os dois planos da vida, o material e o espiritual. Não existe, de fato, uma resposta única ao questionamento, desde que há certos fatores a se considerar. E é justamente sobre esses que pretendemos discorrer.

A busca por informações acerca da condição de desencarnados é maior do que se imagina. As pessoas procuram ou escrevem para as instituições espíritas com o objetivo de obter notícias dos que já partiram desta vida, sejam eles pais, filhos, cônjuges, amigos, namorados, etc. Em alguns desses casos, há pressuposto de ser prática rotineira de qualquer centro espírita, quando na verdade é o contrário disso.

A comunicação entre espíritos encarnados e desencarnados é a própria concepção do fenômeno espírita. Ela é possível e está comprovada em episódios descritos em textos bíblicos como, por exemplo, o anúncio do mensageiro celeste Gabriel à Maria de Nazaré, a aparição de Jesus desencarnado à Maria de Magdala e posteriormente à Tomé, os inumeráveis fenômenos no Pentecostes, a presença dos Espíritos Elias e Moisés durante transfiguração do Mestre no Tabor. No Antigo Testamento, a proibição mosaica à evocação dos mortos atesta que eram acontecimentos reais e até mesmo corriqueiros entre os hebreus sob o domínio dos egípcios. Desde os tempos de Kardec e até os nossos dias, reuniões mediúnicas são organizadas nas quais espíritos necessitados e em sofrimento se apresentam e recebem tratamento, assim como espíritos amigos e mentores espirituais transmitem suas ideias e orientações. Isso posto, não se contesta ser possível que pessoas desencarnadas se manifestem no mundo material.

Uma das mais belas e inesquecíveis fases da vida do médium Francisco Cândido Xavier foi aquela em que ele recebia por psicografia mensagens de desencarnados, o que trazia alívio e conforto aos familiares e amigos presentes nas sessões. Hoje em dia   tal prática ainda existe em algumas instituições espíritas, se bem que em poucas delas, uma vez que o mecanismo exige estrutura especializada no campo espiritual, tanto quanto certas características da faculdade mediúnica e conduta moral do médium.

E quanto ao desejo de receber comunicações diretas ou informações dos desencarnados? É possível a qualquer espírito desencarnado? Todo espírito encarnado pode ter acesso a elas? Vamos consultar as anotações de Allan Kardec às respostas dadas pelos Espíritos em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXV, questão 282, sobre as evocações dos mortos:

 

Quais as causas que podem impedir atenda um Espírito nosso chamado?

"Em primeiro lugar, a sua própria vontade; depois, o seu estado corporal, se se acha encarnado, as missões de que esteja encarregado, ou ainda o lhe ser, para isso, negada permissão. Há Espíritos que nunca podem comunicar-se: os que, por sua natureza, ainda pertencem a mundos inferiores a Terra.  Tampouco o podem os que se acham nas esferas de punição, a menos que especial permissão lhes seja dada, com um fim de utilidade geral. Para que um Espírito possa comunicar-se, preciso é tenha alcançado o grau de adiantamento do mundo onde o chamam, pois, do contrário, estranho que ele é às ideias desse mundo, nenhum ponto de comparação terá para se exprimir. O mesmo já não se dá com os que estão em missão, ou em expiação, nos mundos inferiores. Esses têm as ideias necessárias para responder ao chamado."

Por que motivo pode a um Espírito ser negada permissão para se comunicar?

"Pode ser uma prova, ou uma punição, para ele, ou para aquele que o chama."

 

Observamos assim que o contato de um desencarnado com o nosso mundo depende de: 1. sua vontade; 2. ter autorização; 3. seu adiantamento moral. Consequentemente, nem sempre o habitante do plano espiritual está em condições psíquicas para se comunicar, tampouco possui consentimento para tal. Por outro lado, quanto ao encarnado que deseja receber mensagens do além, é necessário que tenha permissão do Mais Alto, condição que muitas vezes se relaciona aos seus méritos pessoais.

Por tudo isso, podemos concluir que, de fato, para que se estabeleçam todas as condições favoráveis, há parâmetros que devem ser observados e satisfeitos, os quais são avaliados por Espíritos Superiores encarregados. Um dos quesitos considerados por eles é a utilidade da comunicação para ambas  às partes. Por exemplo, seria benéfico a um filho saber que a mãe ainda passa por processos expiatórios no mundo invisível? Provavelmente, não.

Mensagens de desencarnados ou informações a seu respeito não surgem indiscriminadamente, a partir de nossa vontade. Diz-se que "o telefone somente toca de lá para cá".  Se estivermos angustiados para receber mensagem ou notícias da pessoa amada após sua morte, é possível que nosso tormento mental ou emocional possa perturbá-la, onde estiver. Por conseguinte, como regra geral, o melhor a fazer é a mudança de postura, canalizando energias ao estudo dos princípios cristãos e às atividades caritativas. A Justiça Divina se encarregará do resto, uma vez que, ao se alcançar o momento em que notícias dos nossos queridos desencarnados nos sejam permitidas, de alguma maneira elas chegarão até nós.

Marcelo de Oliveira Orsini

 

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