Um giro pelo Espiritismo na Europa

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Uma celebração familiar nos conduziu à Europa, no final de outubro de 2012. Como este tipo de deslocamento exige providências especiais, julgamos que valeria a pena esforço adicional para entrarmos em contato com alguns grupos espíritas europeus. Conversando aqui e ali com internautas do Espiritismo BH residentes no exterior, bem como com amigos que já haviam passado pela experiência, conseguimos elaborar um ótimo roteiro. Planejamos então passar pela França, Holanda e Alemanha, onde poderíamos entrevistar pessoas ligadas ao movimento espírita europeu.

      E assim fizemos, viajando por algumas semanas. Por coincidência, o período coincidiu com a realização de Congressos Médico-Espíritas nos países visitados, promovidos pela Associação Médico-Espírita Internacional, o que nos ajudou a ampliar a visão e o testemunho do trabalho realizado em prol do Espiritismo na Europa.

      Iniciamos com uma passagem por Paris, onde conhecemos Pierre-Etienne Jay, presidente do Centre Le Chemin, um dos administradores do Conseil Spirite Français e Secretário do Mouvement Spirite Francophone. Casado com brasileira, morou por um período em Brasília e traduziu para o francês a obra do Espírito André Luiz.

      Aproveitamos a estada na Cidade Luz e visitamos o túmulo de Allan Kardec, no Cemitério Père Lachaise, turismo obrigatório dos espíritas. Em nosso caso, fizemos o registro de pequena homenagem e publicamos na área de Vídeos Extras do Espiritismo BH. Impressionou-nos ser o túmulo mais florido e um dos mais visitados: durante os sessenta minutos que lá permanecemos, nos deparamos com várias turmas de visitantes conduzidos por guias, que sempre estacionam defronte o dólmen que abriga o busto do Codificador para explicar quem foi Kardec.

      Em seguida, partimos para Rijswijk, pequeno município holandês com nome difícil de escrever e de pronunciar (algo como ráisvaik). Fomos acolhidos por Rosana Cruz, coordenadora do Grupo Bezerra de Menezes, que providenciou um encontro com colaboradores de outro centro espírita, o Grupo Emannuel, ambos da cidade próxima  Den Haag (Haia). Realizamos assim a segunda entrevista, reunindo cinco representantes femininas desses dois grupos, de uma só vez.

      Na capital Amsterdam, gravamos nossa terceira entrevista, desta vez com Maria Morais, presidente do Conselho Espírita Holandês, que gentilmente nos atendeu, a despeito de estar às voltas com mil e uma providências para coordenar mais uma versão do Congresso Médico-Espírita na capital.

      Partimos em seguida para a Alemanha e fomos recebidos por Garcita Müller, admiradora incondicional do EBH, que nos ajudou sobremaneira com os contatos para entrevistas nesse país. Aportamos em Bonn, justamente no último dia do Congresso Médico-Espírita Alemão, encontro liderado pela Dra. Marlene Nobre, presidente da AME-Internacional, com presença de médicos brasileiros e alemães e prestigiado por grande público. Com ela realizamos a quarta entrevista. Ainda em Bonn, batemos um papo com Fernanda Marinho-Göbel, presidente do Grupo Alkastar, que coordena extensa atividade na seara mediúnica, e ainda com Zelina Poinsignon, presidente de um centro espírita na capital de Luxemburgo.

      Deslocamo-nos em seguida para Düsseldorf, onde pudemos gravar a sétima entrevista com a coordenadora do Grupo Freundeskreis Allan Kardec, Tereza Matos, centro do qual participa a nossa anfitriã Garcita.

      Para finalizar a jornada espírita européia, encerramos com a última entrevista em Stuttgart, sendo a nossa convidada Maria Gekeler, presidente do Grupo SEELE e da União Espírita Alemã (Deutsche Spiritistische Vereinigung).

      Relatada a trajetória, desejamos expor as impressões que tivemos nesta experiência. Devemos confessar que ficamos admirados com muitas coisas que presenciamos, por termos sido portadores de expectativas equivocadas e de certos paradigmas. A começar pelo conceito do "centro espírita" ou "grupo espírita", a que estamos acostumados. Em geral, em nosso país as casas espíritas possuem sede própria, em edificações com espaços para múltiplas atividades, como auditórios, salas para passes e evangelização, ambientes para  assistência social, livraria e biblioteca e salas reservadas para as atividades mediúnicas. É fato que, na Europa, encontramos, em alguns casos, grupos com estruturas semelhantes. Porém, a maioria deles se localiza em pequenas salas alugadas (e todos reclamam dos altos valores do aluguéis), às vezes compartilhadas com atividades de terceiros em horários diferenciados. Tal situação limita bastante as possibilidades para o desenvolvimento dos trabalhos, especialmente no que concerne às reuniões mediúnicas e à aplicação de passes. A frequência de público geralmente é pequena, entre dez e trinta pessoas, em dias regulares, sendo a maioria brasileiros.

      O Espiritismo está sendo restituído na Europa. Sim, à época de Kardec a Doutrina Espírita se expandiu da França para vários países, mas as grandes guerras se encarregaram de dizimá-lo. As obras espíritas publicadas foram destruídas ou perdidas e, em muitos casos, reencontradas pelo que denominaríamos sorte. Sabemos, no entanto, que os Espíritos sempre estiveram à frente das iniciativas do Bem e, aos poucos, tudo está se recompondo. É indiscutível que as mulheres reconstruíram países como a Alemanha após a Segunda Guerra, já que a maioria dos homens havia perecido. Pois bem, essa força espiritual feminina está sendo reconvocada para o reerguimento do Espiritismo nos países europeus. São elas donas-de-casa, comerciantes, profissionais e mães: estão na boa luta, promovendo encontros para estudos, seminários e tratamentos fluidoterápicos. Realizam atendimento telefônico em um "SOS Preces" de modo improvisado, às vezes de dentro de seus lares. Promovem a visita de expositores brasileiros e europeus para palestras, com o fito de expandir a divulgação espírita. Nós as apelidamos carinhosamente de mulheres-moisés, pois estão conduzindo, cada uma em sua região geográfica, o seu "povo" à "terra prometida" do aprendizado pelo conhecimento da Doutrina, disciplina e práticas cristãs.

      As iniciativas voluntárias para assistência social na Europa são de certa forma dificultadas pelas leis de cada país e por práticas culturais. Os países ricos também possuem a sua quota de mendigos (geralmente imigrantes), órfãos, idosos em asilos, crianças abandonadas. Poder-se-ia pensar que há generoso campo para as ações sociais, onde os integrantes dos grupos espíritas poderiam atuar. Mas não é tão fácil como no Brasil. Há, dentre outras coisas, desconfiança quanto às intenções dos voluntários e exigências legais para comprovação de conhecimento da língua nativa. E com isso as ações voluntárias são muitas vezes coibidas pelas instituições locais.

      Para o desenvolvimento do Espiritismo no exterior é fundamental o domínio da língua nativa. Como são brasileiros que coordenam tudo, não há como atrair o interesse dos nativos sem uma boa comunicação com eles. Por essa razão, voluntários traduziram no passado, total ou parcialmente, as obras da Codificação para o francês, o inglês, o alemão e o holandês. Na Holanda, por exemplo, o contemporâneo de Kardec Jean Guillaume Plate, conhecido como J.G. Plate, traduziu, no século XIX, todos os livros da Codificação para o holandês. Como atualmente estão desatualizados com as modernizações do idioma, o Conselho Espírita Holandês está providenciando a revisão dos textos. Por seu turno, na França, o trabalho já se desenvolve com a tradução das obras subsidiárias dos Espíritos André Luiz e Irmão X. Com relação às palestras rotineiras, elas são conduzidas em português ou na língua local, a depender da situação, em alguns casos com auxílio de intérpretes. Como era de se esperar, o diálogo com espíritos nas comunicações psicofônicas também exige o conhecimento da língua do país. Por exemplo, ouvimos dizer que na Alemanha há muitos casos de manifestações de espíritos que outrora foram nazistas e judeus, comunicando-se em alemão. Isso exige o conhecimento da língua para se estabelecer os diálogos.

      Um ponto que nos chamou a atenção pelas dificuldades encontradas é a reunião mediúnica. A escassez de locais apropriados e exclusivos para tratamento e educação de pessoas com experiência prática para atuar como dirigente, dialogador ou médium psicofônico/psicógrafo causa natural insegurança a certos grupos brasileiros que atuam no exterior. Nem todos os grupos espíritas estão plenos de recursos estruturais ou humanos para trabalharem com mediunidade, com um mínimo de riscos de descontinuidade, desagregação do grupo ou posturas inadequadas. E ainda mais: há situações relatadas em que visitantes brasileiros deram certas orientações aos grupos locais que consideramos despropositadas. Não obstante, notamos que todos os grupos espíritas visitados se preocupam em realizar estudos, tendo como base as apostilas da FEB, demonstrando preocupação e interesse com a unificação das práticas no Movimento Espírita.

      A obsessão é, como seria de se esperar, um problema indistinto ao país e se verifica em toda parte. Contudo, o fenômeno não é conhecido pela população em geral. O obsedado só encontra mesmo solução com tratamentos médicos à base de medicamentos medicamentos ou por outros métodos alheios à Doutrina Espírita. Aqui no Brasil, quando pessoas de diferentes religiosidades se veem às voltas com processos obsessivos e apelam sem sucesso para os recursos de suas igrejas, muitas vezes esbarram nos centros espíritas em busca de socorro. No exterior, entretanto, basicamente não há o que fazer, porque o Espiritismo ainda é bastante desconhecido, assim como a terapia desobssessiva. Daí se conclui sobre a grande relevância de se implementar reuniões seguras para o tratamento espiritual, meta que é ainda um sonho para muitas comunidades espíritas européias.

      O Congresso Médico-Espírita é um evento assaz interessante. Podemos afirmar que vai ao encontro da curiosidade do europeu para com os fenômenos espirituais. As chamadas experiências de quase-morte, assim como as curas por métodos fluidoterápicos, são um prato cheio para muitas pessoas, atraindo a presença de profissionais locais e de países vizinhos, assim como os do Brasil, como psiquiatras, psicólogos e filósofos. Na Holanda, por exemplo, houve neste ano a participação de estudantes de medicina locais.

      Entretanto, exageram os que afirmam que o europeu só se interessa pelos aspectos fenomênicos da Doutrina Espírita, pouco se importando com a parte moral. De fato, o rigor da Religião nos séculos passados provocou o descrédito de boa parte da população pelos ensinos cristãos. Não obstante, o europeu também procura a casa espírita para ouvir o ensino evangélico, contanto que estejam seguros dos propósitos da instituição que os irá receber. Por isso, reforçamos a importância do domínio da língua local, para que o estrangeiro possa receber do brasileiro explicações coerentes e saber o que poderá obter na instituição espírita.

      Com relação aos expositores brasileiros, dos quais temos eventuais notícias que estão a visitar os países europeus ou norte-americanos, gostaríamos de fazer algumas observações. Vamos primeiramente destacar o caso dos expositores renomados, como  Divaldo Franco. Para algumas pessoas, pensar que Divaldo está fazendo palestras em Nova Iorque, Luxemburgo, Lisboa ou Stuttgart, pode parecer luxo ou exibições desnecessárias. Entretanto, o que testemunhamos, na palavra dos nossos contatos europeus, é o caráter missionário deste espírito desbravador, no tocante à divulgação da Doutrina Espírita, à orientação para a formação e atividades dos grupos espíritas e ao incentivo à participação da população local. Outros oradores espíritas renomados também exerceram e exercem este papel ainda hoje. Por outro lado há situações em reverso: expositores brasileiros mais preocupados em dar projeção aos  seus nomes, em vender os seus livros, do que em simplesmente colaborar com os irmãos que atuam exterior. Convenhamos: fazer uma palestra no Brasil ou em outro país pode ser tanto bom quanto ruim: depende da conduta do orador e do conteúdo que transmite. O fato de se ter feito uma palestra espírita em país distante não confere a ninguém posição superior àquele que não teve ainda a chance de fazê-lo. Posso afirmá-lo com convicção, porque eu mesmo realizei quatro só nesta viagem e não me sinto especial por essa razão. Assim, há cooperadores da tribuna espírita valorosos, assim como há também os casos em que equívocos são cometidos. Isso dizemos com base no que ouvimos pelo testemunho de quem nos recebeu.

      Para finalizar, quero dizer o quanto sou grato a Deus por ter me permitido a oportunidade de passar por essas maravilhosas experiências. Como se diz em minha terra, fui "tratado a pão-de-ló", com muito carinho e consideração por pessoas que ainda não me conheciam. Pude observar o grande valor do trabalho persistente e árduo de todos os brasileiros que desbravam os caminhos do Espiritismo nos países visitados. Por já ter estado pessoalmente com Jussara Korngold, presidente do Spiritist Group of New York, e entrevistado em Belo Horizonte a companheira Sandra Mussi, ex-presidente do Conselho Espírita Canadense, estou convicto que o mesmo acontece nas terras americanas e canadenses.

      O que podemos fazer é pedir aos Planos Superiores, sob a égide de Nosso Senhor Jesus, iluminação e força para esses irmãos nas terras longínquas e nos colocarmos à disposição para auxiliá-los.

      O que devemos fazer, sem dúvida, é valorizar cada vez mais a bênção de residirmos em um país onde há fartura de recursos espíritas à nossa disposição (instituições, livros, expositores, campo de trabalho e muito mais), demonstrando, com o suor do nosso próprio trabalho de elevação moral, gratidão a Deus por nos permitir acesso a tantos tesouros espirituais.

Marcelo de Oliveira Orsini

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