Editorial

É possível obter notícias dos desencarnados?

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Intitulamos este artigo com uma pergunta, aliás, muito comum em nosso meio espírita. Em geral, a dúvida se origina a partir da combinação de dois fatores: a saudade intensa advinda da morte física de um ente querido e a escassez de conhecimento de determinados mecanismos de comunicação entre os dois planos da vida, o material e o espiritual. Não existe, de fato, uma resposta única ao questionamento, desde que há certos fatores a se considerar. E é justamente sobre esses que pretendemos discorrer.

A busca por informações acerca da condição de desencarnados é maior do que se imagina. As pessoas procuram ou escrevem para as instituições espíritas com o objetivo de obter notícias dos que já partiram desta vida, sejam eles pais, filhos, cônjuges, amigos, namorados, etc. Em alguns desses casos, há pressuposto de ser prática rotineira de qualquer centro espírita, quando na verdade é o contrário disso.

A comunicação entre espíritos encarnados e desencarnados é a própria concepção do fenômeno espírita. Ela é possível e está comprovada em episódios descritos em textos bíblicos como, por exemplo, o anúncio do mensageiro celeste Gabriel à Maria de Nazaré, a aparição de Jesus desencarnado à Maria de Magdala e posteriormente à Tomé, os inumeráveis fenômenos no Pentecostes, a presença dos Espíritos Elias e Moisés durante transfiguração do Mestre no Tabor. No Antigo Testamento, a proibição mosaica à evocação dos mortos atesta que eram acontecimentos reais e até mesmo corriqueiros entre os hebreus sob o domínio dos egípcios. Desde os tempos de Kardec e até os nossos dias, reuniões mediúnicas são organizadas nas quais espíritos necessitados e em sofrimento se apresentam e recebem tratamento, assim como espíritos amigos e mentores espirituais transmitem suas ideias e orientações. Isso posto, não se contesta ser possível que pessoas desencarnadas se manifestem no mundo material.

Uma das mais belas e inesquecíveis fases da vida do médium Francisco Cândido Xavier foi aquela em que ele recebia por psicografia mensagens de desencarnados, o que trazia alívio e conforto aos familiares e amigos presentes nas sessões. Hoje em dia   tal prática ainda existe em algumas instituições espíritas, se bem que em poucas delas, uma vez que o mecanismo exige estrutura especializada no campo espiritual, tanto quanto certas características da faculdade mediúnica e conduta moral do médium.

E quanto ao desejo de receber comunicações diretas ou informações dos desencarnados? É possível a qualquer espírito desencarnado? Todo espírito encarnado pode ter acesso a elas? Vamos consultar as anotações de Allan Kardec às respostas dadas pelos Espíritos em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXV, questão 282, sobre as evocações dos mortos:

 

Quais as causas que podem impedir atenda um Espírito nosso chamado?

"Em primeiro lugar, a sua própria vontade; depois, o seu estado corporal, se se acha encarnado, as missões de que esteja encarregado, ou ainda o lhe ser, para isso, negada permissão. Há Espíritos que nunca podem comunicar-se: os que, por sua natureza, ainda pertencem a mundos inferiores a Terra.  Tampouco o podem os que se acham nas esferas de punição, a menos que especial permissão lhes seja dada, com um fim de utilidade geral. Para que um Espírito possa comunicar-se, preciso é tenha alcançado o grau de adiantamento do mundo onde o chamam, pois, do contrário, estranho que ele é às ideias desse mundo, nenhum ponto de comparação terá para se exprimir. O mesmo já não se dá com os que estão em missão, ou em expiação, nos mundos inferiores. Esses têm as ideias necessárias para responder ao chamado."

Por que motivo pode a um Espírito ser negada permissão para se comunicar?

"Pode ser uma prova, ou uma punição, para ele, ou para aquele que o chama."

 

Observamos assim que o contato de um desencarnado com o nosso mundo depende de: 1. sua vontade; 2. ter autorização; 3. seu adiantamento moral. Consequentemente, nem sempre o habitante do plano espiritual está em condições psíquicas para se comunicar, tampouco possui consentimento para tal. Por outro lado, quanto ao encarnado que deseja receber mensagens do além, é necessário que tenha permissão do Mais Alto, condição que muitas vezes se relaciona aos seus méritos pessoais.

Por tudo isso, podemos concluir que, de fato, para que se estabeleçam todas as condições favoráveis, há parâmetros que devem ser observados e satisfeitos, os quais são avaliados por Espíritos Superiores encarregados. Um dos quesitos considerados por eles é a utilidade da comunicação para ambas  às partes. Por exemplo, seria benéfico a um filho saber que a mãe ainda passa por processos expiatórios no mundo invisível? Provavelmente, não.

Mensagens de desencarnados ou informações a seu respeito não surgem indiscriminadamente, a partir de nossa vontade. Diz-se que "o telefone somente toca de lá para cá".  Se estivermos angustiados para receber mensagem ou notícias da pessoa amada após sua morte, é possível que nosso tormento mental ou emocional possa perturbá-la, onde estiver. Por conseguinte, como regra geral, o melhor a fazer é a mudança de postura, canalizando energias ao estudo dos princípios cristãos e às atividades caritativas. A Justiça Divina se encarregará do resto, uma vez que, ao se alcançar o momento em que notícias dos nossos queridos desencarnados nos sejam permitidas, de alguma maneira elas chegarão até nós.

Marcelo de Oliveira Orsini

 

O Poder da Palavra

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Raras eram as civilizações antigas que faziam uso da escrita como meio de comunicação ou como forma de registrar sua história, pensamentos e sentimentos. Em função disso, valorizavam de forma considerável as palavras. Costumavam atribuir a elas formas e força. Acreditavam que elas tinham vida e que eram dotadas de poderes fantásticos que as auxiliavam no limitado contexto cultural e social em que viviam. Acreditavam que, quando pronunciadas, geravam força e poder, realizando então os seus pedidos. Sabemos que essa crença se fazia presente em diversas ocasiões do cotidiano, como rituais sagrados e de cura, celebrações de casamentos, cerimônias fúnebres e rituais de exorcismos.

A ciência já nos provou hoje que as palavras realmente exercem uma grande influência tanto na mente quanto no organismo do ser humano. O Espiritismo também nos esclarece muito a respeito. A literatura espírita é repleta de ensinamentos.

Em uma psicografia de Divaldo Franco, Dr. Bezerra de Menezes nos diz: “Sabe-se hoje, cientificamente, que a boa palavra proferida com entusiasmo faz que o cérebro e o hipotálamo secretem uma substância denominada endorfina, que atua na medula e bloqueia a dor, tal como ocorre na acupuntura.”

No livro Entre o Céu e a Terra, André Luiz nos conta sobre uma palestra em um educandário de Nosso Lar em que a Irmã Clara em um determinado momento diz: “...a palavra, qualquer que seja, surge dotada de energias elétricas específicas libertando raios de natureza dinâmica. A palavra falada contém imagens e contextos. Se for emitida com amor, conduz a quadros e idéias felizes expulsando pensamentos e sentimentos inferiores e favorecendo a entrada da esperança e felicidade.”

Podemos concluir que a palavra tem uma participação muito grande no desenvolvimento do nosso espírito. Ela deve ser usada de maneira construtiva, incentivando as pessoas ao crescimento e nunca para queixas ou lamentações. Devemos sempre manter os bons pensamentos, pois deles sairão palavras positivas que irão gerar força, fé e confiança. É importante que evitemos comentários infelizes, impressões negativas, a não ser para ressaltar uma situação favorável ou extrair uma lição positiva.

“Falando nós construímos.” Depende de nós o resultado final da nossa construção. Se utilizamos palavras enobrecedoras, teremos nossa construção estável, firme e equilibrada. Se fazemos o uso indevido das palavras, isso se refletirá da mesma forma no nosso espírito, ou seja, seremos instáveis ou até mesmo desequilibrados.

Temos na história da humanidade grandes exemplos de pessoas que fizeram bom uso das palavras trazendo ensinamentos e conhecimentos como: Sócrates, na Grécia antiga, Buda, na Índia, São Francisco de Assis, na Itália da Idade Média, e por fim Jesus, que nada deixou escrito. Suas palavras nos foram trazidas através dos apóstolos e são as nossas diretrizes nos dias atuais.

Que possamos nos empenhar hoje e sempre no bom uso de nossas palavras!

Herbert Faria

Evangelização de Portadores de Transtorno Mental e/ou Dependência Química em Ambiente Hospitalar

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Quando permitimo-nos ver o homem como um ser integral, a atuação a seu favor se faz em uma vertente bio-psic-sócio-espiritual a fim de auxiliá-lo em sua melhoria íntima, respeitando o tempo de cada um no aprendizado da vida.

André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier nos faz uma assertiva de que “o trabalho de recuperação do corpo, fundamenta-se na reabilitação do Espírito”. Desta feita, a ação de evangelizar chega como uma ferramenta bendita em auxílio à reabilitação do Espírito, quando este ouve as lições de Jesus, acolhe-as na mente e coração e permite que as mesmas possam produzir frutos de renovação íntima, numa crescente evolutiva no Bem.

Refletindo sobre a pedagogia do Cristo percebemos que por conhecer a quem a mensagem seria levada, Ele adequava sua linguagem ao ouvinte e à circunstância; não apenas transmitia a palavra, mas dosava o ensinamento de acordo com a condição individual de cada um e, acima de tudo, ensinava pelo exemplo e com amor. Precisamos, então, como aprendizes que somos, buscar seguir-lhe os passos, aprender e apreender para transmitir Suas lições – este roteiro de vida que nos foi legado.

Quando acolhemos o “ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15) é preciso munir-se de fé, confiança em Deus e arregimentar valores morais e espirituais para que esta empreitada de amor seja feita com caridade, no trabalho e serviço em nome de Deus, sabendo que estaremos como semeadores a semear a semente divina. Esta semente de luz cairá no terreno íntimo do coração do outro, mas irá com parcela de nosso magnetismo (o que estamos oferecendo?); a germinação, no entanto, dependerá da individualidade de cada qual para que o crescimento, floração, frutificação se faça ao tempo de cada um.

É servir e passar, sem urgência na resposta. Este e um aprendizado para a vida (de quem ouve a palavra e para quem a transmite). Em nossa condição humana atual, não conseguiremos alcançar a profundidade da transformação ocorrida a nível espiritual na alma destes irmãos, que momentaneamente estagiam na dor do sofrimento mental ou das dependências, seja de substâncias ou de outras. Cremos, no entanto, que as lições do evangelho são capazes de promover a higienização psíquica em o campo mental das criaturas, sendo esta, talvez, a primeira resposta e possibilidade do ser. Higienizado e limpo, surge um plano psíquico favorável à promoção do autoencontro e deste, a abertura para a provocação de mudanças íntimas, compreensão de que todos somos instrumentos ativas na construção da própria vida e responsáveis pelos próprios atos e escolhas. Favorece o entendimento e compreensão das dores e aflições íntimas vividas por cada qual.

Evangelizar em um ambiente psiquiátrico (ou em qualquer outro lugar), portanto, à luz dos ensinos dos Espíritos Superiores, é vê-los como Espírito imortal na estrada da vida, muito próximo a nós. Nesta hora, ao ver o outro, caído naquela rota, “quase morto”, é preciso mover-se de íntima compaixão e auxiliar, sem julgamentos, nem exposições da dor alheia, mas sim manifestando o afeto que fale ao espírito. Se o toque na alma acontecer, a busca por entendimento e conceitos chegará num momento posterior facultando um reencontro com a espiritualidade, provocando o movimento necessário de mudança, nesta ou noutra vida.

Sabemos que o enfermo traz em si marcas de seus delitos, mas é preciso lembrar que qualquer alma, por mais infratora que tenha sido, contêm em si ações enobrecedoras e a essência divina que precisam ser percebidas e valorizadas.  E, ao evangelizador cabe um papel importante em ressaltar estes pontos.

Ao refletir sobre a prática da evangelhoterapia, é imperioso pensar no ato de cuidar, que faz parte das ações daquele que se coloca como evangelizador e facilitador no processo. É preciso respeitar as crenças religiosas alheias, atendo-se às questões morais contidas nas lições imorredouras do Cristo, posto que elas são universais. Neste cuidar, é urgente levar consolo e esperança, pois muitos destes perderam a vontade de viver.

Nesta tarefa é necessário, também, cuidar dos recursos didáticos, lembrando que naquele ambiente estarão criaturas com variações em seus quadros patológicos. Pode-se usar material lúdico, tendo o cuidado de não infantilizar; músicas que elevam; imagens e palavras que toquem a alma e promovam elevação vibratória. Não se descuidar da busca pelo conhecimento evangélico/doutrinário. Não olvidar uma aplicação prática para os ensinamentos, contextualizando a lição trabalhada, favorecendo a compreensão do tema estudado. Ter o cuidado de não levar, não usar materiais cortantes, cordas, etc. capazes de ferir ou machucar, lembrando-se do ambiente hospital em que estão.

O preparo íntimo do evangelizador é imprescindível, desta feita, quando dirigir-se para aquele encontro é importante munir-se de recursos que envolvam, sensibilizem, despertem e tornem agradável o momento da evangelização, posto que aquele instante é uma verdadeira comunhão espiritual. Construa uma atmosfera de confiança, recheada de palavras de bom ânimo, conforto, neste trabalho em equipe, respeitando uns aos outros e sempre buscando o amparo da Espiritualidade Benfeitora, que ali se encontra em nome de Deus. 

É preciso conhecer, não só sobre o que diz o evangelho descrito pelos evangelistas, o conteúdo doutrinário mas, também, o saber acerca das patologias que acomete os irmãos internos, a fim de, no mínimo, não comprometer o trabalho dos profissionais da área de saúde que naquele ambiente tudo fazem para auxiliar, através do uso de fármacos, psicoterapias, terapias ocupacionais, procedimentos outros e demais abordagens necessárias à recuperação do enfermo.

Importa saber que no contato com os irmãos em sofrimento mental, numa fase de crise, em momentos agudos da doença, é possível ouvir frases e expressões carregadas de dor e sofrimento, muitas vezes manifestas através de vibrações de raiva, choro, rancor, revolta, além de palavras que podem ferir a quem ouve, deixando vir à tona marcas de suas histórias reencarnatórios... É imperioso entender que aquela criatura ferida é teu irmão em humanidade. Nesta hora, então, é momento da manifestação real da vivência do evangelho, ou seja: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15:12).

Algumas pessoas não compreendem a tarefa de evangelização em ambiente psiquiátrico e como é sua ação. Entendemos que a atuação se faz numa vertente espiritual, que abrange o ser além do corpo físico. É uma proposta terapêutica para a alma! Este olhar faculta o entendimento das possibilidades de recepção dos ensinamentos evangélico-doutrinários. Por analogia, é como se no Espírito existissem “receptores sensoriais” capazes de se ligar às lições de esperança, misericórdia e amor de Deus, convertendo-as em sinais ou energias capazes de ser entendidas e assimiladas pela alma enferma.  Assim toda gota de amor que verte sobre aqueles corações, são possibilidades reais de melhoria no terreno intimo.

Quando a dúvida surgir em seu coração, e fizer com que penses em desistir da tarefa junto a estes irmãos, lembrem-se de uma belíssima lição, que fala do amor incondicional de um pai distanciado do seu filho, em planos espirituais distintos... Aquele pai amoroso passa a visitar, diariamente, aquele ente querido em planos abismais, levando-lhe o conforto de uma oração e frases esclarecedoras... Sem urgência, sem cobrança de uma cura imediata, apenas doando sua atenção, carinho, amor... Irmão X, conclui: “A renovação conseguida por noventa e dois anos de devotamento talvez custasse, sem eles, noventa e dois séculos. O amor para auxiliar, aprende a repetir”.
Muita paz!

Lucrecia Valle
03/2013

Vivenciando a Caridade

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Muitas vezes nos perdemos no conceito e na prática da verdadeira caridade segundo Jesus nos ensinou em sua passagem pela terra. Acreditamos, em muitas ocasiões, que estamos sendo caridosos ao comprar uma rifa com fins beneficentes ou quando damos uma moeda ao mendigo que anda pelas ruas. Mas, seriam essas atitudes suficientes para deixar-nos seguros e confiantes de termos auxiliado o nosso próximo? Estaríamos realmente cumprindo nosso dever como cristãos? Quase nunca paramos para refletir sobre essa atitude.

Existe uma grande diferença entre praticar a verdadeira caridade e o ato de doar uma esmola. Quando damos uma esmola estamos repassando o que temos em excesso e não nos fará falta. Doamos muitas vezes para ficarmos livre do pedinte que nos incomoda e raramente pensamos no outro que se sente feliz com a oferta, mas ao mesmo tempo certamente se sente humilhado com a situação.

Quando praticamos a caridade há o envolvimento dos sentimentos mais nobres que possuímos. Sentimos brotar em nós o amor, a humildade, a simplicidade e o desejo sincero de ver o nosso próximo amparado. Não exigimos nada em troca e nem temos a intenção oculta e egoísta de nos tornamos conhecidos pela nossa atitude. Colocamos o amor em todos os nossos gestos e palavras em favor daquele que consideramos mais necessitados que nós.

A Doutrina Espírita nos ensina e nos lembra a todo momento que “Fora da caridade não há salvação” e que ela, a caridade, é a mãe de todas as virtudes.

Na pergunta de nº 886 do Livro dos Espíritos Kardec questiona ao espírito de verdade: “O que Jesus entende como sendo caridade?”  E a resposta foi: - “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas”. A benevolência é a complacência, é boa vontade para com todos. A indulgência é a tolerância, a paciência e a misericórdia que devemos ter com nossos semelhantes. E o perdão é a remissão das penas, o esquecimento das dívidas ou ofensas que cobramos de alguém.

Não devemos confundir a caridade com a filantropia que também é uma forma de ajuda ao próximo, porém na filantropia se doa do excedente em prol do desenvolvimento das artes, música, ciências e outras áreas e raramente oferece a oportunidade das experiências e desenvolvimento dos sentimentos humanos.

A caridade pode se fazer presente em todas as relações em que temos com os nossos semelhantes durante a nossa vida: em casa, no trabalho, com os amigos e com os inimigos. Devemos estar sempre atentos às oportunidades que temos de exercitá-la sendo mais atenciosos e mostrando nosso apreço às pessoas que nos cercam. Devemos sempre nos colocar na posição das pessoas que nos procuram com paciência, resignação, humildade e envolvidos com os verdadeiros sentimentos da prática do bem tentando vivenciar o seu sofrimento e sua dor. Conhecendo melhor o nosso próximo vamos perceber que ele nem sempre precisa da ajuda material. Muitas vezes as pessoas que se encontram perdidas buscam em suas vidas um consolo, um amparo, uma palavra amiga para que possam seguir em paz e harmonia.

Nas nossas atitudes devemos amparar os necessitados toda vez que seja possível lembrando dois grandes ensinamentos de Jesus: “... Tu porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita, para que tua esmola fique em secreto e teu Pai que vê em secreto, te recompensará.”.  Mateus VI-4. “Faça aos outro o que queres que te façam”, máximas que nos faz refletir sobre o nosso orgulho, vaidade e egoísmo.

Nos engamos algumas vezes ao pensar que poderíamos fazer muito mais pelo nosso semelhante se tivéssemos mais dinheiro mas é apenas uma forma egoísta de pensar. Em realidade estaríamos cuidando primeiramente de nós mesmos e os outros estariam sendo deixados em segundo plano. Erramos quando acreditamos que não podemos auxiliar por não termos condições financeiras. Se não temos dinheiro temos nosso trabalho que pode ser oferecido a alguém ou alguma instituição, temos o nosso tempo a ser dedicado, temos a palavra amiga a ser oferecida, o pensamento positivo emitido e a prece consoladora em favor de alguem. Se ainda assim não conseguirmos levar o nosso auxílio aos que se encontram mais distante ou se não nos consideramos preparados, podemos começar dentro dos nossos lares, junto a nossos familiares. O lar, geralmente é uma grande oficina que nos permite exercitar a caridade e todas as suas virtudes, bastando para isso apenas estarmos munidos da vontade pura de ajudar e desejosos de ter a consciência tranquila colaborando para todos nós tenhamos uma vida mais harmoniosa e feliz.

Herbert Faria – Nov/2012

Resgates Coletivos

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O incêndio ocorrido em uma boate na cidade de Santa Maria (RS) no final de janeiro/13 provocou significativa circulação de material pela internet concernente aos chamados 'resgates coletivos', episódios em que muitas pessoas desencarnam ao mesmo tempo. Quando da ocorrência do Tsunami que varreu parte da costa japonesa, publicamos em nosso Editorial o capítulo 18 da obra Ação e Reação, de autoria do Espírito André Luiz (copyright 1956 - FEB). Nesta oportunidade, republicamos o mesmo texto, no intuito de auxiliar as pessoas a encontrar fundamentos, consolo e esperança, quando de catástrofes semelhantes.


Resgates coletivos

       Entendíamo-nos com Silas, acerca de variados problemas, quando expressivo chamamento de Druso nos reuniu ao diretor da casa, em seu gabinete particular de serviço.
       O chefe da Mansão foi breve e claro.
       Apelo urgente da Terra pedia auxílio para as vítimas de um desastre aviatório.
       Sem alongar-se em minúcias, informou que a solicitação se repetiria, dentro de alguns instantes, e conviria esperar a fim de examinarmos o assunto com a eficiência precisa.
       Com efeito, mal terminara o apontamento e sinais algo semelhantes aos do telégrafo de Morse se fizeram notados em curioso aparelho. Druso ligou tomada próxima e vimos um pequeno televisor em ação, sob vigorosa lente, projetando imagens movimentadas em tela próxima, cuidadosamente encaixada na parede, a pequena distancia.
    Qual se acompanhássemos curta noticia em cinema sonoro, contemplamos, surpreendidos, a paisagem terrestre.
   Sob a crista de serra alcantilada e selvagem, destroços de grande aeronave guardavam consigo as vítimas do acidente. Adivinhava-se que o piloto, certamente enganado pelo traiçoeiro oceano de espessa bruma, não pudera evitar o choque com os picos graníticos que se salientavam na montanha, silenciosos e implacáveis, à maneira de medonhos torreões de fortaleza agressiva.
   Em pleno quadro inquietante, um ancião desencarnado, de semblante nobre e digno, formulava requerimento comovedor, rogando à Mansão a remessa de equipe adestrada para a remoção de seis das catorze entidades desencarnadas no doloroso sinistro.
   Enquanto Druso e Silas combinavam medidas para a tarefa assistencial, Hilário e eu olhávamos, espantados, o espetaculo inédito para nós ambos.
   A cena aflitiva parecia desenrolar-se ali mesmo.
   Oito dos desencarnados no acidente jaziam em posição de choque, algemados aos corpos, mutilados ou não; quatro gemiam, jungidos aos próprios restos, e dois deles, não obstante ainda enfaixados às formas rígidas, gritavam desesperados. em crises de inconsciência.
   Contudo, amigos espirituais, abnegados e valorosos, velavam ali, calmos e atentos.
   Figurando-se cascata de luz vertendo do Céu, o auxílio do Alto vinha, solícito, em abençoada torrente de amor.
   O quadro patético era tão real à nossa observação, que podiamos ouvir os gemidos daqueles que despertavam desfalecentes, as preces dos socorristas e as conversações dos enfermeiros que concertavam providências à pressa...
   De alma confrangida, vimos desaparecer a noticia televisada, enquanto Silas cumpria as ordens do cromandante da instituição com admirável eficiência.
    Em poucos instantes, diversos operários da casa puseram-se em marcha, na direção do local minuciosamente descrito.
    Voltando ao gabinete em que lhe aguardávamos o retorno, Silas ainda se entendeu com o orientador, por alguns minutos, com respeito ao serviço em foco.
    Foi então que Hilário e eu indagamos se não nos seria possível a participação na obra assistencial que se processava, no que Druso, paternalmente, não concordou, explicando que o trabalho era de natureza especialíssima, requisitando colaboradores rigorosamente treinados.
    Cientes de que o generoso mentor poderia dispensar-nos mais tempo, aproveitamos o ensejo para versar a questão das provas coletivas.
    Hilário abriu campo livre ao debate, perguntando, respeitoso, por que motivo era rogado o auxílio para a remoção de seis dos desencarnados, quando as vítimas eram catorze.
    Druso, no entanto, replicou em tom sereno e firme:
    — O socorro no avião sinistrado é distribuído indistintamente, contudo, não podemos esquecer que se o desastre é o mesmo para todos os que tombaram, a morte é diferente para cada um. No momento serão retirados da carne tão-somente aqueles cuja vida interior lhes outorga a imediata liberação. Quanto aos outros, cuja situação presente não lhes favorece o afastamento rápido da armadura física, permanecerão ligados, por mais tempo, aos despojos que lhes dizem respeito.
    — Quantos dias? — clamou meu colega, incapaz de conter a emoção de que se via possuido.
       — Depende do grau de animalização dos fluídos que que lhes retém o Espírito à atividade corpórea — respondeu-nos o mentor. — Alguns serão detidos por algumas horas, outros, talvez, por longos dias... Quem sabe? Corpo inerte nem sempre significa libertação da alma. O gênero de vida que alimentamos no estágio físico dita as verdadeiras condições de nossa morte. Quanto mais chafurdamos o ser nas correntes de baixas ilusões, mais tempo gastamos para esgotar as energias vitais que nos aprisionam à matéria pesada e primitiva de que se nos constitui a instrumentação fisiológica, demorando-nos nas criações mentais inferiores a que nos ajustamos, nelas encontrando combustível para dilatados enganos nas sombras do campo carnal, propriamente considerado. E quanto mais nos submetamos às disciplinas do espírito, que nos aconselham equilíbrio e sublimação, mais amplas facilidades conquistaremos para a exoneração da carne em quaisquer emergências de que não possamos fugir por força dos débitos contraídos perante a Lei. Assim é que «morte física» não é o mesmo que «emancipação espiritual».
    — Isso, no entanto — considerei —, não quer dizer que os demais companheiros acidentados estarão sem assistência, embora coagidos a temporária detenção nos próprios restos.
    — De modo algum — ajuntou o amigo generoso —, ninguém vive desamparado. O amor infinito de Deus abrange o Universo. Os irmãos que se demoram enredados em mais baixo teor de experiência física compreenderão, gradativamente, o socorro que se mostram capazes de receber.
    — Todavia — reparou Hilário —, não serão atraidos por criaturas desencarnadas, de inteligência perversa, já que não podem ser resguardados de imediato?
    Druso estampou significativa expressão facial e ponderou:
    — Sim, na hipótese de serem surdos ao bem, é possível se rendam às sugestões do mal, a fim de que, pelos tormentos do mal, se voltem para o bem. No assunto, entretanto, é preciso considerar que a tentação é sempre uma sombra a atormentar-nos a vida, de dentro para fora. A junção de nossas almas com os poderes infernais verifica-se em relação com o inferno que já trazemos dentro de nós.
    A explicação não poderia ser mais clara.
    Talvez por isso, algo desconcertado pelo esclarecimento direto, meu companheiro que, tanto quanto eu, não desejava perder a oportunidade de mais ampla conversação, acentuou, humilde:
   — Nobre instrutor, decerto não temos o direito de questionar qualquer determinação que lhe dimane da autoridade; ainda assim, estimaria conhecer mais profundamente as razões pelas quais nos é defeso o trabalho de colaboração nos serviços pertinentes ao socorro nos resgates de conjunto. Não poderíamos, acaso, cooperar com os obreiros desta casa, nas expedições de auxílio às vítimas de acidentes diversos, de modo a pesquisar as causas que os determinaram? Indiscutivelmente a Mansão, com as responsabilidades de que se encontra investida, desincumbirse-á de trabalhos dessa espécie todos os dias...
   — Quase todos os dias — corrigiu Druso, sem pestanejar.
E, fitando Hilário de estranha maneira, aduziu:
   — É imperioso observar, porém, que vocês coletam material didático para despertamento de nossos irmãos encarnados, quase todos eles em fase importante de luta, no acerto de contas com a Justiça Divina. Analisando os resgates dessa ordem, vocês fatalmente seriam compelidos à autópsia de situações e problemas suscetíveis de plasmar imagens destrutivas no ânimo de muitos daqueles que ambos se propõem auxiliar.
   Esboçando leve sorriso em que deixava transparecer a humildade que lhe adornava o espírito de escol, aditou:
   — Parece-me que não seríamos capazes de comentar um desastre de grandes proporções, no campo dos homens, sem lhes insuflar o vírus do medo, tanta vez portador do desânimo e da morte.
   A palavra do orientador, serena e evangélica, reajustava-nos os impulsos menos edificantes.
Inegavelmente, a Terra jaz repleta de criaturas, tanto quanto nós, algemadas a escabrosos compromissos, carentes de ação contínua para o necessário reequilíbrio. Não seria justo atormentá-las com pensamentos de temor e flagelação, quando através do bem, sentido e praticado, podemos cada hora arredar de nossos horizontes as nuvens de sofrimentos prováveis.
   Assinalando-nos a atitude inequívoca de compreensão e de obediência, como não podia deixar de ser, o chefe da instituição continuou em tom afável, depois de ligeira pausa:
   — Imaginemos que fossem analisar as origens da provação a que se acolheram os acidentados de hoje... Surpreenderiam, decerto, delinqüentes que, em outras épocas, atiraram irmãos indefesos do cimo de torres altíssimas, para que seus corpos se espatifassem no chão; companheiros que, em outro tempo, cometeram hediondos crimes sobre o dorso do mar, pondo a pique existências preciosas, ou suicidas que se despenharam de arrojados edifícios ou de picos agrestes, em supremo atestado de rebeldia, perante a Lei, os quais, por enquanto, somente encontraram recurso em tão angustioso episódio para transformarem a própria situação. Quantos milhares de irmãos encarnados possuimos nós, em cujas contas com os Tribunais Divinos figuram débitos desse jaez? Entretanto, não desconhecemos que nós, consciências endívidadas, podemos melhorar nossos créditos, todos os dias. Quantos romeiros terrenos, em cujos mapas de viagem constam surpresas terríveis, são amparados devidamente para que a morte forçada não lhes assalte o corpo, em razão dos atos louváveis a que se afeiçoam!... Quantas intercessões da prece ardente conquistam moratórias oportunas para pessoas cujo passo já resvala no cairei do sepulcro?... Quantos deveres sacrificiais granjeiam, para a alma que os aceita de boamente, preciosas vantagens na Vida Superior, onde providências se improvisam para que se lhes amenizem os rigores da provação necessária? Bem sabemos que, se uma onda sonora encontra outra, de tal modo que as “cristas” de uma ocorram nos mesmos pontos dos “vales” da outra, esse meio, em consequência aí não vibra, tendo-se como resultado o silêncio. Assim é que, gerando novas causas com o bem, praticado hoje, podemos interferir nas causas do mal, praticado ontem, neutralisando-as e reconquistando, com isso, o nosso equilíbrio. Desse modo, creio mais justo incentivarmos o serviço do bem, através de todos os recursos ao nosso alcance. A caridade e o estudo nobre, a fé e o bom ânimo, o otimismo e o trabalho, a arte e a meditação construtiva constituem temas renovadores, cujo mérito não será lícito esquecer, na reabilitação de nossas idéias e, conseqüentemente, de nossos destinos.
   Entregara-se o chefe a mais longa pausa e, movido pelo propósito de aprender, indaguei de Druso se ele mesmo não teria acompanhado algum processo de resgate coletivo, em que os Espíritos interessados não teriam outro recurso senão a morte violenta, como remate aos dias do corpo denso, ao que o instrutor respondeu, presto:
   — Guardo em minha experiência alguns casos expressivos que seria justo relacionar, no entanto, reportar-nos-emos simplesmente a um deles, pois nossas obrigações são inadiáveis.
   Depois de momentos rápidos em que naturalmente apelava para a memória, comentou, benevolente:
   — Há trinta anos, desfrutei o convívio de dois benfeitores, a cuja abnegação muito devo neste pouso de luz. Ascânio e Lucas, Assistentes respeitados na Esfera Superior, integravam-nos a equipe de mentores valorosos e amigos... Quando os conheci em pessoa, já haviam despendido vários lustros no amparo aos irmãos transviados e sofredores. Cultos e enobrecidos, eram companheiros infatigáveis em nossas melhores realizações. Acontece, porém, que depois de largos decênios de luta, nos prélios da fraternidade santificante, suspirando pelo ingresso nas esferas mais elevadas, para que se lhes expandissem os ideais de santidade e beleza, não demonstravam a necessária condição específica para o vôo anelado. Totalmente absortos no entusiasmo de ensinar o caminho do bem aos semelhantes, não cogitavam de qualquer mergulho no pretérito, por isso que, muitas vezes, quando nos fascinamos pelo esplendor dos cimos, nem sempre nos sobra disposição para qualquer vistoria aos nevoeiros do vale... Dessa forma, passaram a desejar ardentemente a ascensão, sentindo-se algo desencantados pela ausência de apoio das autoridades que lhes não reconheciam o mérito imprescindível. Dilatava-se o impasse, quando um deles solícitou o pronunciamento da Direção Geral a que nos achamos submissos. O requerimento encontrou curso normal até que, em determinada fase, ambos foram chamados a exame devido. A posição imprópria que lhes era característica foi carinhosamente analisadá por técnicos do Plano Superior, que lhes reconduziram a memória a períodos mais recuados no tempo. Diversas fichas de observação foram extraidas do campo mnemônico, à maneira das radioscopias dos atuais serviços médicos no mundo e, através delas, importantes conclusões surgiram à tona... Em verdade, Ascânio e Lucas possuíam créditos extensos, adquiridos em quase cinco séculos sucessivos de aprendizado digno, somando as cinco existências últimas nos círculos da carne e as estações de serviço espiritual, nas vizinhanças da arena física; no entanto, quando a gradativa auscultação lhes alcançou as atividades do século 15, algo surgiu que lhes impôs dolorosa meditação... Arrebatadas ao arquivo da memória e a doer-lhes profundamente no espírito, depois da. operação magnética a que nos referimos, reapareceram nas fichas mencionadas as cenas de ominoso delito por ambos cometido, em 1429, logo após a libertação de Orleães, quando formavam no exército de Joana dArc... Famintos de influência junto aos irmãos de armas, não hesitaram em assassinar dois companheiros, precipitando-os do alto de uma fortaleza no território de Gâtinais, sobre fossos imundos, embriagando-se nas honrarias que lhes valeram, mais tarde, torturantes remorsos além do sepulcro. Chegados a esse ponto da inquietante investigação, pela respeitabilidade de que se revestiam foram inquiridos pelos poderes competentes se desejavam ou não prosseguir na sondagem singular, ao que responderam negativamente, preferindo liqüidar a dívida, antes de novas imersões nos depósitos da subconsciência. Desse modo, em vez de continuarem insistindo na elevação a níveis mais altos, suplicaram, ao revés, o retorno- ao campo dos homens, no qual acabam de pagar o débito a que aludimos.
      — Como? — indagou Hilário, intrigado.
      — Já que podiam escolher o gênero de provação, em vista dos recursos morais amealhados no mundo íntimo — informou o orientador —, optaram por tarefas no campo da aeronáutica, a cuja evolução ofereceram as suas vidas. Há dois meses regressaram às nossas linhas de ação, depois de haverem sofrido a mesma queda mortal que infligiram aos companheiros de luta no século XV.
   — E o nosso caro instrutor visitou-os nos preparativos da reencarnação agora terminada? — inquiri com respeito.
   — Sim, por várias vezes os avistei, antes da partida. Associavam-se a grande comunidade de Espíritos amigos, em departamento específico de reencarnação, no qual centenas de entidades, com dívidas mais ou menos semelhantes às deles, também se preparavam para o retorno à carne, abraçando, assim, trabalho redentor em resgates coletivos.
   — E todos podiam selecionar o gênero de luta em que saldariam as suas contas? — perguntei, ainda, com natural interesse.
   — Nem todos — disse Druso, convicto. — Aqueles que possuíam grandes créditos morais, qual acontecia aos benfeitores a que me reporto, dispunham desse direito. Assim é que a muitos vi, habilitando-se para sofrer a morte violenta, em favor do progresso da aeronáutica e da engenharia, da navegação marítima e dos transportes terrestres, da ciência médica e da indústria em geral, verificando, no entanto, que a maioria, por força dos débitos contraídos e consoante os ditasses da própria consciência, não alcançava semelhante prerrogativa, cabendo-lhe aceitar sem discutir amargas provas, na infãncia, na mocidade ou na velhice, através de acidentes diversos, desde a mutilação primária até a morte, de modo a redimir-se de faltas graves.
    — E os pais? — inquiriu meu colega, alarmado. —Em que situação surpreenderemos os pais dos que devem ser imolados ao progresso ou à justiça, na regeneração de si mesmos? a dor deles não será devidamente considerada pelos poderes que nos controlam a vida?
   — Como não? — respondeu o orientador — as entidades que necessitam de tais lutas expiatórias são encaminhadas aos corações que se acumpliciaram com elas em delitos lamentáveis, no pretérito distante ou recente ou, ainda, aos país que faliram junto dos filhos, em outras épocas, a fim de que aprendam na saudade cruel e na angústia inominável o respeito e o devotamento, a honorabilidade e o carinho que todos devemos na Terra ao instituto da família. A dor coletiva é o remédio que nos corrige as falhas mútuas.
   Estabelecera-se longa pausa.
   A lição como que nos impelia a rápidos mergulhos no mundo de nós mesmos.
   Hilário, contudo, insatisfeito como sempre, perguntou, irrequieto:
   — Instrutor amigo, imaginemos que Ascânio e Lucas, após a vitória de que nos dá notícia, continuem anelando a subida aos planos mais altos... Precisarão, para isso, de nova consulta ao passado?
   — Caso não demonstrem a condição específica indispensável, serão novamente submetidos à justa auscultação para o exame e seleção de novos resgates que se façam precisos.
   — Isso quer dizer que ninguém se eleva ao Céu sem quitação com a Terra?
   O interlocutor sorriu e completou:
   — Será mais lícito afirmar que ninguém se eleva a pleno Céu, sem plena quitação com a Terra, porqüanto a ascensão gradativa pode verificar-se, não obstante invariavelmente condicionada aos nossos merecimentos nas conquistas já feitas. Os princípios de relatividade são perfeitamente cabíveis no assunto. Quanto mais céu interior na alma, através da sublimação da vida, mais ampla incursão da alma nos céus exteriores, até que se realize a suprema comunhão dela com Deus, Nosso Pai. Para isso, como reconhecemos, é indispensável atender à justiça, e a Justiça Divina está inelutavelmente ligada a nós, de vez que nenhuma felicidade ambiente será verdadeira felicidade em nós, sem a implícita aprovação de nossa consciência.
O ensinamento era profundo.
   Cessamos a inquirição e, como serviço urgente requeria a presença de Druso, em outra parte, retiramo-nos em demanda do Templo da Mansão, com o objetivo de orar e pensar.

(Do livro Ação e Reação, pelo Espírito André Luiz - Capítulo 18)